Crônicas

Overkill em copacabana

Sol, pé na areia, água de coco, um domingo ensolarado. Entre o barulho do quebra-mar e a água que cai cantando, à la carioques, do chuveiro de um quiosque na Orla, Ludmila me cutuca do alto da caixa de som: “a vida é louca, mano, a vida é louca. Me perdi pelo caminho…” É fácil perder seu controle diante do mar de Copacabana. É fácil despir-se de roupas e da mente rotineiras, deixar o corpo à mostra, como um da gema — mesmo que o bronze se mostre, no fim do dia, rosé gold.

Tantas coisas confluem nesta cidade, a começar pelas raças de cachorros: vira-latas com pêlos quase inexistentes e spitz alemães como o meu Zeca, confortavelmente estendidos sobre as cangas de seus tutores, debaixo de toldos na areia. Um boxer de coleira se aconchega nas minhas pernas e me diz:

— relaxa escritora, tô na área e já rendendo conteúdo.

(Sempre tem dessas aproximações dos cães. Zeca me faz mais falta ainda.) Crianças com suas bicicletas cor de chiclete, motocicletas estacionadas ao lado do chuveiro, tênis de areia, turistas, cerveja, havaianas — originais e afins —, coca-colas e pepsis — pode ser? —, todas as cores, todas as línguas, abençoadas pelos incansáveis e rijos braços do Redentor, que paira tranquilo acima das nuvens que, por ora, encobrem o grande maciço do Corcovado.

Domingo é conhecido por ser o dia do descanso, mas acho que Copacabana funciona em uma fissura de tempo em que é sempre domingo na extensão do seu mar. Cessam instantaneamente quaisquer atividades de esforço que não ligadas ao lazer. É pausa líquida-à-milanesa. Ausentam-se as preocupações. Copacabana oferece Iemanjá para que recarreguemos nossas energias — e os ecos da Shakira que agora tomam conta do som ambiente.

Oh, boy, I can see your body moving (…)
This is perfection!

Os orixás são ondas energéticas, independente da orientação religiosa do mar de gente em suas areias.

Viajar para Copacabana não deveria ter um motivo, qualquer que fosse. É pedido da alma, é necessidade humana. Eu, que já fui cidadã copacabanense, me encontro no limiar entre a felicidade de quem está e a tristeza nostálgica de quem parte. Estou a escrever, separada pela primeira vez da minha amiga desde que chegamos. Viemos para ver uma das bandas mais significativas da minha vida; eu, que não sou dos shows, ela, que topa até os que não curte tanto assim.

Um show direto da Austrália. Banda repaginada que mantém, desde os anos 80, o vocalista com exatamente o mesmo timbre de voz. De Nova Friburgo para a Austrália existe o Rio de Janeiro: bebidinhas, Bukowski, Clube dos Macacos, Sol, Botafogo, pizza, hambúrguer da madruga, Jardim Botânico, trânsito no alto da floresta, Copacabana, risoto express e o antigo Metropolitan. Um passeio de amigas, uma we-moon, como descobri no caminho, e o show do Men at Work — banda originalmente de men que agora traz mulheres performáticas com a boca no trompete, dessas que literalmente roubam a cena, vestindo camisetas triviais do Brasil compradas no calçadão de Copacabana.

Um show que me pôs com pé torcido sobre botas over knee de salto agulha. Os mesmos saltos que, acompanhados de saltos quadrados e mais baixos, cruzaram o corredor do shopping com o caminhar de um dos guitarristas da banda. Nós três trocando olhares, descrentes de que era ele mesmo, ali como um cidadão comum — e nós, fãs que não pediram fotos nem autógrafos.

É indescritível como o show de uma banda especial vibra diferente em nosso coração. A felicidade de juntar a própria voz à multidão 35+ de pé num sábado à noite, erguer celulares em mil registros, sorrir para desconhecidos e pular é quase como caminhar molhando os pés na faixa entre o fim da areia seca e a rebentação do mar. São esses momentos em que temos certeza de que estamos vivos. Em que reconhecemos que estamos presentes. E, como consequência, criamos memórias.

Minha primeira we-moon está no fim e já se tornou uma dessas memórias eternas. Uma lua de mel entre amigas, nova tendência desse nosso mundo contemporâneo, em que não se espera um casamento para se comemorar a vida com viagens. E como nos esbaldamos! Ela, que é do rock; eu, mais do samba — fomos em ambos. Ela quer dormir; eu prefiro não. Também ficamos equilibradas aqui. Cervejas para mim, drinks para ela, café para as duas. Muita água, mercado, pizza; amigos reencontrados e apresentados. Karaokê com direito a sermos convidadas a tomar o microfone e fechar a noite. A nova amiga que também é fã do Men at Work — e a que procuramos no final do show para um abraço de felicidade. Piscina do hotel, o protetor solar que eu insisti e ela não quis tanto; marquinhas de turista, sorvete do Copacabana Palace, um mate limão do ambulante. Enquanto termino essas linhas, já pensando em uma próxima we-moon, ela encontra uma grande amiga com seu filho recém-nascido. Meu coco está no fim. A Shakira já saiu e toca, pasmem, Overkill pelos amplificadores do quiosque. Vou pedir para cortarem meu coco, comer sua carne, respirar um pouco mais desse ar tão domingo e caminhar pela areia.

“Alone between the sheets
Only brings exasperation
It’s time to walk the streets
Smell the desperation
At least there’s pretty lights”

Bia Mies

BIA MIES é carioca da Serra Fluminense, autointitula-se "do mundo" e reflete em sua escrita um olhar sensível sobre a vida do seu "entremeio": cada crônica torna-se uma interação entre o trivial e a reflexão poética, uma tapeçaria de influências e insights. Tece pontes entre arquitetura, urbanismo, artes visuais e cênicas, moda, leituras, cafés, viagens, família, amores, Zeca (seu fiel companheiro de quatro patas), amigos, Itália e "experiências dos usuários", área na qual atualmente se especializa. Cada percepção transforma-se em texto, numa busca exploratória de pensamentos e emoções, através de uma visão pessoal do cotidiano e do extraordinário. Celebra a beleza da imperfeição e convida o leitor a uma jornada introspectiva, onde cada palavra é cuidadosamente escolhida para ressoar e provocar. Como o sopro das vivências que se entrelaçam pelo seu caminho, Bia Mies homenageia quase duas décadas de exploração literária no Crônicas Cariocas.

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